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O Grupo / Faculdade / Colunistas

A Miséria Espiritual da Nova Ordem

" 3. Indo ele assentar-se no Monte das Oliveiras, achegaram-se os discípulos e, estando a sós com ele, perguntaram-lhe: “Quando acontecerá isso? E qual será o sinal de tua volta e do fim do mundo?”
4. Respondeu-lhes Jesus: Cuidai que ninguém vos seduza.
5. Muitos virão em meu nome, dizendo: “Sou eu o Cristo”. E seduzirão a muitos.
6. Ouvireis falar de guerras e de rumores de guerra. Atenção: que isso não vos perturbe, porque é preciso que isso aconteça. Mas ainda não será o fim.
7. Levantar-se-á nação contra nação, reino contra reino, e haverá fome, peste e grandes desgraças em diversos lugares.
8. Tudo isso será apenas o início das dores.
9. Então sereis entregues aos tormentos, matar-vos-ão e sereis por minha causa objeto de ódio para todas as nações.
10. Muitos sucumbirão, trair-se-ão mutuamente e mutuamente se odiarão.
11. Levantar-se-ão muitos falsos profetas e seduzirão a muitos.

Mateus 24, 3-11"

 

Parte dos movimentos modernos de massa possui caráter comum que os une numa histeria gnóstica e revolucionária de inverter a ordem da realidade segundo seus juízos particulares acerca da existência.

Na verdade, as heresias atuais buscam encontrar um sentido de vida sem a presença viva e real de Deus, o que logicamente acaba por ser acompanhado de profundo vazio existencial que acaba por ocasionar um aniquilamento da fé no Ser criador e salvador do mundo. Quando a fé no real é relegada a nada, a um âmbito da existência humana que não se mostra presente no dia-a-dia, o resultado é a ausência de fé e a falta de esperança na vida que há de vir para além do próprio corpo.

A falta de fé na sociedade moderna ocidental levou a duas situações: de um lado, o desejo materialista de realização plena do sentido da vida a partir dos desejos individuais, tais como poder, riqueza, prazeres do mundo, paixões etc; de outro, a busca do transcendente que não encontra eco no plano racional, uma vez que fé sem razão não pode ser fé, mas emotivismo passional. A fé acompanhada da razão implica prudência e autodomínio em ações permanentes e estáveis (Carta de Paulo aos Gálatas, 5, 22). Na nova ordem buscada pela modernidade, o emotivismo barato substitui a dificuldade de uma vida dedicada à vontade de Deus, e não de si mesmo.

A fé em qualquer coisa, sem o conhecimento da revelação do plano transcendente ao plano imanente, é marca característica do relativismo moderno, tão avesso à tradição e aos valores mais perenes e caros de todas as civilizações. O recurso de muitas pessoas para os princípios transcendentes acarreta busca de sentido existencial. Porém tal busca é aniquilada pela ausência de conhecimento do que está por trás dela. Assim, vemos as religiões orientais e a new age fazendo sucesso, sem o mínimo de exigência no entendimento por parte daqueles que se alimentam de tais “filosofias” de vida. Nem mesmo os que se dizem cristãos se alimentam da palavra do Deus vivo! Como podem conhecer seu Deus sem conhecer o que Ele diz?

Nesse sentido, o que se observa na sociedade atual é tanto revolta contra Deus quanto busca pelo transcendente sem critérios que sejam absorvidos no plano concreto da existência. Em ambos, há erros derivados de heresias gnósticas e de ausência de informação, o que naturalmente leva ao mesmo estado de fato: ausência completa de Deus e frustração de uma vida vazia de sentido.

No primeiro caso, o materialismo corta os laços em relação ao transcendente e procura justificar o sentido da vida a partir do próprio plano imanente. Ora, numa situação dessas, os valores morais e a retidão das virtudes restam sem sentido, pois não há mais a aceitação de que tais coisas possuem uma origem determinada na inteligência eterna do Criador, mas que tais princípios são criados pelo homem na história. Cabe, então, a pergunta: se fossem criados pelos homens, como aceitaríamos que civilizações inteiras estivessem interligadas a partir de religiões? E mais: se os valores fossem criados pelo homem, qual desses homens permitiu desde todo o sempre que os homens se reunissem em comunidades e desenvolvessem hábitos virtuosos? De onde tal homem teria tirado tais valores morais?

Se o sentido das coisas estivesse nas próprias coisas, suas existências singulares não teriam finalidade alguma, pois a finalidade estaria só na própria coisa e não no fim a que ela almeja. Do mesmo modo, a vida humana possui uma finalidade que está além dela mesma, justificada por algo que não está somente nela, mas que a transcende e a fundamenta por dentro e por fora. Os homens são agentes históricos, mas fundamentados por algo que transcende a história, pois, não fosse assim, a vida humana seria sem sentido, já que os homens não teriam razão para existir, exceto para satisfazer seus desejos e vontades.

O materialismo implica a atribuição de um sentido da história a partir da própria história, fazendo dela o juízo de si mesma. Então, se a história tem um fim que se reduz na própria história temporal, não existindo eternidade, seria necessário que os homens almejassem realizar o melhor de suas “ideias” sobre a história no próprio tempo em que vivem. Homens como Hitler, Stalin, Marx, dentre outros, buscaram realizar o paraíso perfeito no próprio plano histórico, tirando Deus da jogada e colocando-se como juízes da própria história, como senhores que realizariam um juízo apocalíptico no próprio tempo e que levariam a humanidade coletiva ao estado de paraíso, onde a utopia revolucionária seria imanentizada totalmente (Hans Urs von Balthasar, Teologia da História, Fonte, p. 92). Na verdade, o materialismo nada mais é senão um desejo do homem de se colocar no papel de deus sobre si mesmo, inicialmente, e depois sobre os outros, por entender que suas ideias são mais iluminadas que as dos outros e que sua mente poderá ser a única saída para um mundo “injusto” e caótico! Atualmente, movimentos revolucionários como a Teologia da Libertação, dentre outros, procuram utilizar a Igreja de Cristo como “instrumento” para satisfazer seus desejos políticos de levar o proletariado ao estado de perfeição, “matando todos os burgueses” em nome de Deus. Tal situação é gravíssima. O papa Bento XVI, na obra chamada Sal da Terra, em que foi entrevistado por Peter Seewald, chama a atenção para o uso das Igrejas e de religiões para finalidades “mundanas”, citando o exemplo da Teologia da Libertação: “A ideia fundamental é que o cristianismo também tem de ter efeito na existência terrena do homem. Tem de lhe dar a liberdade de consciência, mas também tem de procurar fazer valer os direitos sociais do homem. Mas quando essa ideia é aproveitada num sentido unilateral, procura, em geral, ver no cristianismo o instrumento de uma transformação política do mundo. A partir desse ponto tomou forma a ideia de que todas as religiões seriam apenas instrumentos para a defesa da liberdade, da paz e da preservação da criação; teriam, pois, de se justificar através de um sucesso político e de um objetivo político” (papa Bento XVI, Sal da Terra, Imago, p. 108).

O comentário do papa chama a atenção para um ponto: o de que movimentos como a TL não aceitam o governo de Deus na história e usam a Igreja para satisfazer suas pretensões ideológicas e políticas, que nada mais são senão ideias que procuram substituir a Deus e estabelecer uma única verdade criada por um homem que deverá ser realizada inteiramente no plano da história. Provocam ódio contra Deus e desejo de “libertação” de si mesmos, pois não aceitam a condição humana como é, mas procuram fazer o papel de criadores de si mesmos e, por sua vez, de criadores de uma nova história.

Os arautos da modernidade desejam uma nova ordem mundial, que nada seria senão a mentirosa perspectiva de que a ordem criada por Deus inexiste e que o homem precisa criar uma ordem histórica, perfeita, que não se reduz numa cultura, mas exige a amplitude do mundo, como se os paladinos dessa nova ordem buscassem um deus-homem que os salvasse e os governasse com mãos suaves. Quem vê cara não vê coração! As mãos suaves de um homem são também mãos de criatura pecadora, que pode utilizar suas transgressões a fim de torná-las obrigatórias ao mundo inteiro!

A nova ordem também é um desejo mimético de aportar os pecados para fora de si, jogando a culpa dos próprios erros nos outros. O bode expiatório da nova ordem só poderá, assim, ser cada religião em cada cultura, pois a religião é a força civilizatória que constitui a tradição e os valores morais antagonicamente opostos ao estilo moderno de vida. A nova ordem substitui, então, a tradição e as ordens antigas que se apoiavam no mundo espiritual. A nova ordem caminhará para tornar o mundo visível num “mundo desejoso perfeito”, criado pelo homem e avesso aos valores antigos. O que é antigo saiu de moda, não merece a atenção “dos modernos”. O mundo espiritual será o próprio mundo visível, em que todo homem é deus de si mesmo. Eis as pretensões da nova ordem: a destruição de todas as religiões, em especial o cristianismo, e a união espiritual num deus-homem, que representará o salvador do mundo.

Os arautos da new age, por possuírem mente que odeia a Deus sobre todas as coisas, não se restringem à aversão sobre tudo o que é tradicional. Também exortam seus fiéis alienados a uma fé sem representação viva do transcendente. E então caímos no segundo caso de nossa análise.

O segundo caso de nossa abordagem cinge-se à fé sem razão ou, ainda, à busca de sentido sem entendimento do que se está buscando. Primeiro, como se pode buscar algo que se desconhece? Como é possível ter fé e esperança em algo que não se conhece e, assim, não se tem certeza? Nesse sentido, a new age procurará aniquilar todas as religiões e estabelecer uma única religião transcendente, um único deus criado pelo homem e que representaria simbolicamente todas as religiões existentes. Ora, perguntaria eu: o deus do hinduísmo é o mesmo deus do islã? O deus dos celtas é o mesmo deus dos egípcios? O Deus de Israel é o mesmo deus dos povos indígenas? Como seria possível uma única religião entre culturas “religiosas” tão distintas? E mais: que tipo de adoração exigiria o deus da nova era?

A nova era mostra ser um movimento ecumênico proposto por homens que desejam ardentemente a paz mundial criada por seus desejos pessoais. Desconsideram os fundamentos sagrados de todas as civilizações e profanam todas as culturas com suas perspectivas agnósticas e materialistas.

De certa maneira, a new age tem o mesmo problema encontrado no relativismo moderno: ambos resultam da tentativa do homem de desconsiderar os juízos de Deus a partir de uma fé sem razão. Uma fé sem razão é uma fé morta, assim como uma razão sem fé é irracionalidade, pois acarreta um sentido de vida aniquilador para a própria vida, em suas concupiscências automutilantes. Na sua epístola, Tiago, apóstolo de Jesus, exorta-nos indagando da seguinte maneira: “Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras” (Tg 2, 18). Ainda Paulo, na Carta aos Romanos, diz que “o justo viverá da fé” (Rm 1, 17). Em ambas as passagens, as Sagradas Letras demonstram que, embora a salvação venha pela fé, uma fé viva é autêntica se implica obras, isto é, uma vida justa, racional, prudente e dedicada ao Criador. Eis uma autêntica fé! Por isso, sem a razão, a fé não pode ser realizada, assim como a razão, sem a fé, resta em trevas, sem a iluminação divina! (Santo Tomás de Aquino, Suma Teologica, BAC, tomo VII, questão 4, art. 3).

A nova era (new age) e a Teologia da Libertação são heresias que, embora se manifestem de modos distintos, pertencem ao mesmo gênero: o desejo do homem de mente moderna de encontrar um sentido de vida na própria história, desconsiderando que sua finalidade esteja no além, na eternidade, e colocando o sentido de sua vida nos prazeres do mundo, na riqueza ou no poder!

O homem de mentalidade moderna busca uma nova ordem contra Deus e contra a tradição, porque acredita que, voltando-se contra quem o criou, “se liberta de todos os condicionamentos” que, na verdade, são partes da própria realidade de seu ser. Ele mesmo crê que se pode tornar “livre” de sua condição de criatura, passando, assim, ao segundo estágio de sua revolta gnóstica: o de ser deus de si mesmo, autocriador, em suma, de criador de uma nova ordem artificial, profana, que rompe com o sagrado e imanentiza o ser em suas complacências.

Eis aí a psicologia egocêntrica de massas dos fiéis da nova era: uma psyche artificial, criada a partir do próprio homem, que produz seu juízo, sua justiça e sua fé. A graça não é então luz que vem do alto, mas o reflexo pagão de uma cultura secular, cuja pretensão é o estabelecimento de uma religião materialista.

Marcus Paulo Rycembel Boeira
Mestre em Direito do Estado, professor do curso de Direito da Faculdade Dom Bosco.

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